
Há pouco mais de um ano, o Brasil parou para ouvir Felipe Bressanim Pereira. Sob o codinome de Felca, o YouTuber produziu uma das peças investigativas mais impactantes da história recente da internet brasileira: o dossiê “Adultização”, que expôs a exploração de crianças na rede, estremeceu o universo dos criadores e mobilizou até mesmo os corredores do Congresso Nacional em Brasília. Mas por trás da voz firme que exigiu justiça e proteção aos menores, escondia-se um homem lutando contra os próprios fantasmas.
Nesta terça-feira (20), Felca finalmente quebrou o silêncio. Em seu aguardado retorno ao YouTube, ele desarmou o tom jornalístico e investigativo para abrir o peito. O que os inscritos viram não foi um novo dossiê sobre terceiros, mas um retrato cru, denso e confessional de suas próprias feridas invisíveis, entre elas a fobia social.
Do silêncio da escola às marcas no corpo
As raízes do isolamento de Felca não nasceram com os holofotes da fama, mas nos corredores escolares. No vídeo, o influenciador resgata memórias dolorosas do período entre os 12 e os 18 anos, marcado por um bullying severo e continuado. Entre humilhações públicas e episódios de violência física — que incluíram um espancamento no banheiro da escola —, a infância e a adolescência do criador foram solapadas pela rejeição.
Foi ali que se instalou a fobia social, um transtorno psicológico profundo que vai muito além da simples timidez. Felca revelou que, mesmo após se tornar um dos nomes mais influentes da internet brasileira, seu corpo continuou reagindo com pânico: em situações sociais corriqueiras, seus batimentos cardíacos chegam a ultrapassar os 130 por minuto apenas por estar cercado de pessoas.
A muleta do álcool e a busca pelo sentido
Para sustentar a persona pública — gravar vídeos, participar de premiações, dar entrevistas e encarar câmeras —, Felca admitiu ter recorrido ao álcool por anos como uma “anestesia”. O remédio improvisado, contudo, cobra um preço alto. O ápice do abismo ocorreu durante uma produção em Londrina, quando, após beber continuamente ao longo do dia, desmaiou em casa, caindo de mau jeito sobre o próprio corpo e fraturando duas costelas.
A dor física refletia uma crise ainda mais antiga. O YouTuber relembrou a fase em que a ideia de tirar a própria vida sufocava qualquer horizonte de futuro. A virada de chave começou a desenhar-se na leitura do psiquiatra austríaco Viktor Frankl, pai da Logoterapia. A premissa de que o ser humano é capaz de superar qualquer sofrimento ao encontrar um propósito tornou-se a bússola que o manteve de pé.
‘Sim’ para a vida: o projeto #sinfel
Decidido a não mais se esconder atrás de telas ou do álcool, Felca encerra a gravação anunciando um passo prático em direção à própria libertação: o projeto #sinfel. Durante os próximos 90 dias, ele se desafiou a dizer “sim” para convites, lugares e interações sociais que sempre evitou pelo pavor do julgamento. A meta é reaprender a habitar o mundo de forma sóbria e transparente.
Mais do que curar a si mesmo, o criador quer transformar sua experiência em escudo para outros. Felca anunciou que vai percorrer escolas públicas e privadas realizando palestras gratuitas sobre o impacto devastador do bullying.
O retorno de Felca mostra que, por trás dos algoritmos e das denúncias que mudam leis, existem histórias humanas urgentes. Ao trocar a lente de investigador pela de sobrevivente, o influenciador lembra que encarar os próprios medos pode ser o ato mais corajoso de todos.
