
O que deveria ser apenas um registro íntimo e de celebração familiar transformou-se, em poucos dias, em um doloroso e emblemático testemunho de resiliência. Na semana passada, Cintia Pimentel publicou um vídeo em homenagem ao aniversário de 39 anos de seu marido, o Primeiro Tenente da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), Ronickson Pimentel dos Santos. Dias após a divulgação da mensagem, no último sábado (27), o oficial foi alvo de um violento atentado na Avenida Goiás, em São Caetano do Sul, onde acabou baleado.
Na gravação, Cintia detalha com profunda sensibilidade a vocação do marido e revela bastidores de uma trajetória profissional que se confunde com uma das maiores tragédias da segurança pública brasileira. Ronickson é irmão de Eloá Cristina Pimentel, a jovem de 15 anos que foi mantida em cárcere privado e assassinada pelo ex-namorado em 2008, no caso de cárcere e sequestro de maior repercussão midiática do país.
Em um dos trechos mais tocantes do vídeo, Cintia desmistifica a cronologia do ingresso de Ronickson nas forças policiais, destacando que a sua dedicação e admiração pela Polícia Militar já existiam muito antes do crime. Contudo, ela relembra a dramática coincidência que selou o destino do oficial: ele realizou a prova de ingresso para a corporação exatamente no mesmo dia em que recebeu a notícia da morte de sua irmã.
“Algumas pessoas costumam dizer que você entrou pra polícia por causa da perda da sua irmã, mas a verdade é que a admiração pela Polícia Militar já existia dentro de você muito antes. O que poucos sabem é que a sua história e a da polícia se cruzaram de uma forma que só os mais fortes conseguem suportar. Foi justamente no dia em que recebeu a notícia mais devastadora da sua vida, a perda da Eloá, que você realizou a prova para ingressar na corporação.”
A homenagem de Cintia exalta a capacidade do tenente em reverter o luto em um “propósito de vida”. Longe de se deixar abater de forma definitiva pelo trauma familiar, Ronickson especializou-se e buscou a excelência técnica dentro da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Tornou-se especialista em gerenciamento de crises — a exata área de atuação que envolveu as negociações do caso de sua irmã —, além de atirador designado e instrutor de novos atiradores de elite (snipers) da ROTA.
“A tragédia que marcou a sua família não endureceu o seu coração, pelo contrário, fez de você um homem ainda mais humano, preparado e comprometido em proteger vidas e lutar para que outras famílias não passem pelo que a sua passou”, declarou a esposa no vídeo publicado dias antes do atentado.
O desfecho da última semana trouxe contornos dramáticos à narrativa de proteção e sacrifício exaltada por Cintia. No sábado, 27 de junho, o tenente Ronickson foi interceptado na Avenida Goiás e atingido por disparos de arma de fogo. O caso mobilizou imediatamente as forças de segurança pública e o Comando da ROTA, que prestou pronto socorro ao oficial. O episódio reacende o debate sobre o risco iminente enfrentado diariamente por agentes que compõem a linha de frente do combate ao crime organizado em São Paulo.
As palavras de Cintia, que inicialmente ressoavam como um agradecimento pelo companheirismo e retidão do marido, hoje ecoam entre os integrantes da corporação como um manifesto sobre a realidade daqueles que escolhem “servir, proteger e honrar”. As investigações sobre as circunstâncias e a autoria do atentado seguem em andamento pelas polícias Civil e Militar.
Ele segue internado em estado gravíssimo no Hospital Estadual Mário Covas, em Santo André.
