
O estarrecedor caso de Amanda Maria Souza de Oliveira, de 37 anos, presa preventivamente em Joinville, no Norte de Santa Catarina, ganhou contornos que misturam horror psicológico e técnicas refinadas de estelionato. Conhecida agora nacionalmente como a encarnação real do suspense cinematográfico “A Órfã”, Amanda conseguiu se passar por uma vulnerável menina autista de 12 anos e viver sob a tutela de uma família de boa situação financeira por 14 meses.
Recentemente, as primeiras mulheres que estenderam a mão à golpista decidiram se manifestar publicamente. Viviane Henriques , coordenadora do Instituto Mãos que Abençoam com Amor, e sua amiga Renata Magalhães publicaram um vídeo-desabafo detalhando o terror psicológico que sofreram com a estelionatária em Joinville
O Relato das Vítimas: O Teatro do Absurdo
No vídeo divulgado, Viviane Henriques relembrou o início do golpe: “Tá vendo essa menina aí, que se dizia de 12 anos? Não enganou só a gente, não. Eu sou Viviane, do Instituto Mãos Cabeçudos com Amor, e em 2023 ela me pediu socorro pelas redes. Eu chamei a minha amiga Renata Magalhães, socorremos ela. Gente, ela aparentava sim. Ela dizia que tinha passado por um caso de prostituição pelo pai, que o pai obrigava ela a tomar hormônios, e que tinha autismo. Então, ela parecia uma adolescente obesa com autismo, e conseguiu convencer a Renata”, explicou.
Renata Magalhães, visivelmente impactada, relembrou um dos traços mais perturbadores e sombrios do convívio com a golpista, envolvendo automutilação ou truques de ilusionismo para gerar extrema piedade: “Não, e mais do que isso, Vivi, tem ainda a história das agulhas. Sim, gente, isso é verídico. Isso é verdade. Ela vomitava agulha, e não vem com essa de que ela botava agulha na boca, não. Ela vomitava, ela fez isso na minha frente, fez na frente da Vivi, e é uma coisa assim, bizarra”.
Renata aproveitou o espaço para alertar sobre a gravidade do perfil de Amanda, criticando quem trata o caso com deboche na internet: “Eu tenho visto muita gente falando, comentando, rindo, zoando, mas é uma estelionatária. É uma narcisista. É uma mulher perigosa. É uma pessoa que colocou um personagem, criou uma narrativa, e envolveu, não foi só a Viviane, não. A minha mãe… tem um vídeo circulando aí dela mandando um vídeo falando ‘Oi, mãe da Renata’. Quem viu esse vídeo? Bota aí nos comentários se você também não seria enganada. E aquilo não é falando só de uma estelionatária, é falando de famílias. Gente, eu quero que esse vídeo chegue lá em Joinville. Os pastores devem estar traumatizados, porque ela manipula, ela bota um contra o outro. Quem viu aquele filme, ‘A Órfã’? Depois que aconteceu com a gente, todo mundo comentou”.
O “Sequestro Emocional” e o Modus Operandi
Segundo as investigações conduzidas pela Polícia Civil de Santa Catarina, a capacidade de Amanda de mimetizar a infância era assustadora. Sob o nome falso de Gabriele, ela andava com mamadeiras, chupetas e utilizava panos infantis — os chamados “cheirinhos” — para dormir.
Para se blindar de desconfianças biológicas causadas por seus traços físicos maduros, Amanda portava uma narrativa perversa: dizia que seu corpo era fruto de abusos sistemáticos na infância, onde fora obrigada pelo próprio pai a ingerir hormônios de crescimento. A mentira justificava sua estatura e peso de mulher adulta.
“Ela conseguiu sequestrar emocionalmente a família. Era uma família com boa situação financeira, então ela levava uma vida de adolescente muito boa. Durante o período em que estava com a família, ela não recebia dinheiro diretamente, mas tudo que havia de bom e do melhor ela recebia”, explicou o delegado responsável pelo caso ao Portal G1.
A farsa em Santa Catarina começou após Amanda se aproximar de uma comunidade religiosa em Joinville, alegando ter fugido do Pará para escapar de maus-tratos. Sensibilizados, os membros da igreja ofereceram ajuda financeira inicial e, pouco tempo depois, um casal decidiu acolhê-la em casa. Durante os 14 meses de convivência, ela recebeu moradia confortável, alimentação, roupas de marca e assistência médica integral.
Para evitar ser descoberta, a criminosa recusava categoricamente qualquer tentativa da família de iniciar um processo legal de adoção ou de matriculá-la em uma escola regular, alegando medo constante de ser rastreada pelo suposto pai agressor.
A Derrocada do Castelo de Cartas
O esquema ruiu graças à persistência e desconfiança de uma tia da família adotiva. Mesmo sem conviver diariamente na casa, a parente nunca comprou a narrativa da idade da “menina” e decidiu investigar por conta própria na internet.
A investigação familiar independente descobriu que a suposta órfã já havia sido presa em Nova Iguaçu (RJ) em 2023 por aplicar exatamente o mesmo golpe, alegando, na ocasião, ser vítima de uma rede de bruxaria. O pai adotivo, ao ser alertado pela irmã, acionou imediatamente as forças policiais.
Levantamentos subsequentes apontaram que Amanda Maria possui um extenso histórico de registros e passagens policiais por diversos estados do país:
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Ceará (sua terra natal)
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Rio de Janeiro (onde foi presa em 2023 pelo mesmo golpe)
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São Paulo
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Minas Gerais
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Rio Grande do Sul
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Goiás
Sanidade Mental em Xeque
O Poder Judiciário catarinense determinou que Amanda seja submetida a rigorosos exames de sanidade mental para avaliar o grau de sua responsabilidade penal. Há ainda uma discrepância biográfica sob análise: ao ser detida pelas autoridades fluminenses em 2023, ela foi apresentada como tendo 42 anos; contudo, os documentos levantados pela Polícia Civil de Santa Catarina apontam que ela tem, na verdade, 37 anos.
O advogado de defesa, Rafael Luiz Siewert, informou em nota à imprensa que aguarda a conclusão dos laudos periciais e técnicos. Amanda permanece detida e responde pelos crimes de estelionato e falsa identidade, enquanto as investigações continuam para mapear outras possíveis vítimas pelo Brasil.
