
Os mais de 5 mil livros que o ex-deputado federal Rubens Paiva colecionou durante a vida desapareceram em Diadema. Com anotações do próprio dono do acervo e muitos até com seu nome escrito na lombada, os livros foram doados para a biblioteca municipal da cidade em meados de 2007, ainda quando a esposa Eunice Paiva estava viva e já sofria com os primeiros estágios do Alzheimer.
A história da família desde o “desaparecimento” do deputado e tudo o que se seguiu durante o endurecimento da ditadura militar no Brasil é assunto do livro “Ainda estou Aqui”, de autoria do filho, Marcelo Rubens Paiva, e que deu origem ao filme homônimo premiado com o Oscar de melhor filme internacional, a primeira estatueta da história do Brasil. O título também estava na concorrência pelo prêmio de melhor filme e melhor atriz, com Fernanda Torres.
Nas páginas 235 e 236 do livro (última das 9 reimpressões da 1ª edição, de 2015), sobre o momento em que Eunice Paiva vivia a mudança de um apartamento grande nos Jardins, em São Paulo, para outro menor, Marcelo conta: “Na mudança, (Eunice) fez coisas inexplicáveis, como jogar todos os papéis e processos arquivados fora. Ódio por ter se aposentado na marra. Ódio por não poder ler processos, acompanhar suas ações. E mandou doar todos os livros, os mais de cinco mil livros, muitos deles com o nome do meu pai na lombada encadernada, muitos deles lidos por meu pai, sublinhados e com anotações à caneta, livros de arte, de direito, todos os prêmio Nobel, enciclopédias, literatura russa, francesa, americana, brasileira… Doei tudo para a Biblioteca Municipal de Diadema, que precisou de dois carretos para levar.”

A saga da reportagem
Durante a leitura da obra, ao tomar conhecimento da cidade como receptora dos livros, a reportagem do ABCD Jornal começou a procurá-los nas bibliotecas públicas da cidade, em dezembro do ano passado. Em visita ao centro de memória de Diadema, a informação não foi diferente de todos os demais locais: ninguém sabia do paradeiro das doações da família Paiva.
Atuais e ex-bibliotecários municipais chegaram a “ouvir falar” sobre os livros, mas também não souberam dizer para onde foram levados.
Entre livreiros, proprietários e funcionários de sebos da cidade e outros tantos entrevistados durante a busca pelo material, a reação foi sempre parecida: a indignação com a perda de livros importantes pelo valor histórico e documental.
Para entender o porquê de a família ter escolhido a cidade do ABC para receber a doação dos livros, a reportagem procurou o próprio Marcelo. Durante evento em que promoveu um bate-papo com leitores na Ria Livraria, na Vila Madalena, no dia 19 de dezembro, em São Paulo, o autor foi questionado sobre o assunto.
Apesar de confirmar a doação para a cidade, Marcelo demonstrou-se irritado e contrariado com a abordagem e disse que não falaria nada sobre o caso. Em outras tentativas formais de entrevistas, inclusive através da assessoria da própria editora de seu livro, a Alfaguara (Cia. das Letras), e também por meio da banda Lost in Translation, da qual faz parte como cantor e gaitista, outras negativas se sucederam.
O ator Selton Mello, que interpreta Rubens Paiva no cinema, também foi procurado para comentar o caso, mas não retornou aos pedidos de entrevista.
A Secretaria de Educação de Diadema informou que os livros não foram localizados pela atual administração. O ex-prefeito José de Filippi Jr., que governou a cidade entre 2005 e 2008, não retornou ao ABCD Jornal para falar sobre o assunto.

Sem memória
Na opinião do jornalista, escritor e memorialista Ademir Medici, o desaparecimento dos livros não é surpresa. “O ABC já queimou livros. Já deu sumiço a obras simplesmente porque foram custeadas por outras administrações. Não cumpre os ditames da legislação, que obriga a criação de Arquivos Públicos. Bibliotecas são fechadas. E este é um mal da direita ou da esquerda, e das administrações públicas como um todo, dos empreendedores públicos e particulares. Os sindicatos patronais e dos trabalhadores não preservam a sua história. E quando o fazem são ações circunstanciais. Já escrevi livros de sindicatos, empresas, órgãos públicos, clubes esportivos, o diabo. E sempre foi uma luta para encontrar fontes primárias, livros de atas e por aí vai. Pior: nem direita, nem esquerda, cobram qualquer coisa, pois também caem nos mesmos pecados.”
Questionado sobre o fato de a preservação da memória não ser valorizada, o memorialista afirma que se trata de um fenômeno mundial. “Não existe preservação nem pelas novas gerações, nem pelas antigas. Nem pelos brasileiros, nem pelos estrangeiros. Quem preserva alguma coisa é o memorialista, o historiador, o homem simples do povo que entende história e memória como elementos importantes para a compreensão da própria vida.”
E finaliza: “O Grande ABC foi construído por migrantes e imigrantes, e por organizações internacionais. Onde localizar documentos do quinhentismo? Não se sabe, por exemplo, quando João Ramalho aqui chegou. A São Paulo Railway construiu a ferrovia Santos a Jundiaí. Seus escritórios na Inglaterra pouco guardam da documentação da época. O sistema Billings, canadense. Procure no Canadá pela documentação primária de 100 anos atrás. Dará com o nariz na porta. Eventualmente alguém ou alguma entidade procura estudar a história da represa, que está completando um século. Há uma série muito boa de revistas feitas pela Eletropaulo. Serviu naquele momento. Hoje nem a Eletropaulo existe mais.”
O filme Ainda Estou Aqui permanece em cartaz em alguns cinemas de São Paulo e estará no Globoplay a partir do dia 6 de abril. Marcelo Rubens Paiva lança neste mês sua nova obra, O Novo Agora, completando a trilogia autobiográfica que se iniciou com Feliz Ano Velho, em 1982.