
O senador Flávio Bolsonaro (PL) comemorou ao lado da esposa e de aliados após o debate presidencial da TV Globo, realizado nesta sexta-feira (23). O candidato do PL beijou a mulher e deu abraços na equipe enquanto o grupo gritava “Flávio presidente” nos bastidores dos estúdios da emissora.
No último embate direto da eleição de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador travaram duelos sobre o legado dos dois últimos mandatos, fizeram cobranças mútuas de propostas e trocaram ataques intensos envolvendo o combate ao crime organizado, apontado por pesquisas como uma das maiores preocupações do eleitorado brasileiro.
MUDANÇA DE ESTRATÉGIA E ATAQUES REDUZIDOS
Após a repercussão negativa do debate anterior na TV Band, marcado por ofensas sequenciais e falta de respostas, ambos os candidatos ajustaram a postura no início do programa. Flávio optou por fazer acenos a governadores eleitos e defender conquistas do governo de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), evitando abordar a reversão da condenação do pai por tentativa de golpe de Estado — pauta central no encontro anterior.
Lula, por outro lado, resgatou episódios críticos da gestão Bolsonaro, como a condução da pandemia de Covid-19 e os índices de desmatamento, contrapondo os fatos às ações de seu próprio governo.
Apesar da redução inicial das agressões pessoais, o momento mais tenso do confronto ocorreu no terceiro bloco. Ao questionar Lula sobre o combate a facções e a liberação de presos em datas comemorativas, Flávio foi surpreendido pela citação do caso Ana Clara, menina de 5 anos morta em Niterói (RJ) em 2021. Lula destacou a presença na plateia da mãe da criança, Cristiane Gomes da Silva, convidada por sua comitiva, e questionou a atuação de Flávio como advogado do policial militar acusado do crime em recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).
— Por que é que um senador da República evita que um policial assassino fosse julgado? O que leva um senador a defender um policial que deu um tiro de fuzil numa menina de cinco anos? — disparou Lula.
Hesitante diante da provocação, Flávio cometeu um deslize ao chamar a mãe da vítima pelo nome da criança:
— Foi uma tragédia o que aconteceu. (…) Era uma troca de tiros numa comunidade conflagrada. A senhora sabe que tem o tráfico de drogas ali. Eu quero ajudar a senhora a saber quem foi o autor desse disparo. Tenho confiança que não foi esse policial, que sequer foi julgado — declarou o senador.
DISPUTA POR ILHA, LAVA-JATO E BANCO MASTER
No bloco de tema livre, Lula pressionou o adversário sobre inquéritos da Polícia Federal que apuram a propriedade de uma ilha em Angra dos Reis (RJ) e voltou a cobrar a quebra de sigilo bancário do candidato do PL.
Flávio reagiu citando as condenações de Lula na Operação Lava-Jato, posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), e mencionou a investigação de tráfico de influência envolvendo o filho do presidente, Fábio Luís, o Lulinha. O senador também tentou associar o PT ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, enquanto Lula rebateu vinculando o próprio Flávio ao empresário e a suspeitas de fraudes financeiras.

REGRAS E VÍDEO DE BOLSONARO
As regras dos blocos iniciais — com sorteio de temas regionais e limite de duas falas por candidato — contiveram a virulência do embate no começo. O primeiro grande atrito ocorreu na discussão sobre a Região Norte, quando Lula criticou a gestão de saúde no Amazonas e lembrou uma declaração de Jair Bolsonaro imitando um paciente com falta de ar durante a crise de oxigênio em Manaus.
Flávio defendeu o pai orientando o público a ver o vídeo na íntegra: — Se você pegar dez segundos antes e dez segundos depois, é exatamente o contrário: o presidente Bolsonaro criticava quem dizia que precisava sentir falta de ar para ir ao hospital — alegou.
ACENOS A GOVERNADORES E TROCA DE OFENSAS
Em busca de consolidação regional, Flávio citou governadores como Luciano Zucco (PL-RS), Sergio Moro (PL-PR), Raquel Lyra (PSD-PE) e Doutor Daniel (Podemos-PA). O candidato do PL também tentou atribuir a expansão das facções no Nordeste e o aumento da inflação ao atual governo.
— Esse governo gasta muito mais do que arrecada e aí precisa aumentar os impostos, tirando do seu bolso. Não adianta se você dá com uma mão e tira com os nove dedos — disse o senador.
Lula pediu direito de resposta contra o termo utilizado e reagiu: — Perdi o dedo trabalhando à noite. Não vou permitir que um miliciano me chame de “nove dedos”. Ele nunca trabalhou na vida, não sabe o que é uma carteira profissional.
Conforme monitoramento do grupo focal da Quaest, Lula obteve boa avaliação na reação à ofensa, mas Flávio recuperou espaço ao pedir desculpas em seguida pelo comentário.
CONTRAPONTO DE VISÕES DE PAÍS
Na reta final, mediada pelo jornalista César Tralli — que precisou repreender interrupções de Flávio e alertar Lula sobre a gestão do tempo de fala —, os dois postulantes reforçaram suas mensagens centrais.
Flávio apresentou propostas com foco em “conectividade” e expansão da internet em comunidades isoladas e aldeias indígenas, tentando projetar uma imagem de renovação. Lula ressaltou o histórico de políticas sociais de sua gestão, destacando a retirada do país do mapa da fome, e buscou associar a candidatura adversária à elite econômica em contraponto à sua trajetória popular.
