
O som das ferramentas de sapateiro, que por gerações ecoou na Paulicéia, e São Bernardo, deu lugar ao silêncio do luto e ao choro contido. Maurício de Souza Alves, figura conhecida e respeitada no bairro pela dedicação ao ofício, viveu nesta semana o pesadelo que nenhum pai deveria enfrentar: o sepultamento da própria filha, Mariane Lima Alves, de apenas 27 anos.
Mariane foi morta a tiros pelo ex-companheiro, Bruno de Oliveira Zeni, de 30 anos, na noite da última terça-feira (17), no Núcleo Habitacional Nova Conquista, em Diadema, onde mora a família. O crime, que também deixou a mãe da vítima ferida, chocou a região pela brutalidade e pelo fato de ter ocorrido na frente da família.
O crime aconteceu por volta das 23h40. Bruno, que possui registro de CAC (Colecionador, Atirador e Caçador), chegou à residência visivelmente embriagado, exigindo levar o filho de 2 anos, que já dormia. Diante da negativa de Sr. Maurício, que zelava pelo bem-estar do neto, o agressor forçou a entrada e disparou contra a família.
“Ele foi covarde, ele foi com maldade fazer isso com a minha filha. Chegou atirando como um maluco”, desabafou Maurício em entrevista após o enterro. “Ninguém é dono de ninguém! Separou, separou. O homem parece que é bobo: ‘A fulana é minha’. Não existe isso, gente. Vamos viver a vida, tão bela a vida.”

Marcas que não cicatrizam
Mariane foi atingida no abdômen e não resistiu. Sua mãe, de 58 anos, foi baleada no rosto e, embora tenha sobrevivido fisicamente, carrega o trauma psicológico de ter visto a filha cair sem vida na sala de casa.
Para o Sr. Maurício, além da dor da perda, resta a preocupação com os dois netos. A filha mais velha, de 8 anos, já compreende a tragédia. “Ela viu na televisão e perguntou: ‘Por que meu pai fez isso com a minha mãe?’. Agora vou ter que correr com ela em psicólogo. Olha o que ele fez com a menina”, lamentou o sapateiro.

Um apelo às autoridades
Conhecido na Paulicéia como um homem simples e trabalhador, Maurício agora usa sua voz para cobrar mudanças e a prisão do culpado. Bruno fugiu em um Honda Fit preto (Placa FBO5H76) logo após os disparos e segue foragido.
“Eu queria tanto que prendessem esse Bruno. Pelo amor de Deus! Se alguém ver ele por aí, liga para a polícia. Eu não sei o que está acontecendo com esse país. País, mude a lei!”
O caso foi registrado no 03º D.P. de Diadema como feminicídio consumado e tentado. A polícia busca imagens de câmeras de segurança para localizar o paradeiro de Bruno de Oliveira Zeni.
Mariane é lembrada pelo pai como uma “guerreira e batalhadora”, uma vida interrompida precocemente pela posse e pela violência que, infelizmente, ainda fazem parte da realidade de muitas mulheres brasileiras.
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